O desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Ney de Barros Bello Filho, afirmou ter sido vítima de um suposto esquema de tráfico de influência envolvendo um advogado investigado pela Polícia Federal.
Segundo o magistrado, o profissional, que também é suspeito de envolvimento com tráfico de cocaína, teria utilizado seu nome para negociar vantagens indevidas.
O caso foi revelado pela Revista Piauí na edição de janeiro e ganhou forte repercussão no último fim de semana no Maranhão, estado natal do desembargador.
De acordo com a reportagem, o advogado João Paulo Todde Nogueira é investigado pela Polícia Federal por supostamente intermediar a compra de decisões judiciais no TRF-1 em benefício de um traficante de drogas.
Ney Bello, no entanto, não é alvo da investigação e negou qualquer relação com o advogado.
Em mensagem enviada a um grupo de WhatsApp com outros magistrados do tribunal, o desembargador afirmou que foi vítima de “venda de fumaça”, expressão usada para caracterizar quando alguém usa o nome de terceiros para obter vantagens indevidas.
“Fui vítima de tráfico de influência (famosa venda de fumaça) praticada por um traficante de cocaína, e que também é advogado, que teria afirmado a outro traficante de drogas que já havia me pago ‘uma beirada’”, escreveu.
Ainda na mensagem, Ney Bello afirmou que sequer conhece o advogado investigado e que nunca julgou processos patrocinados por ele.
“Eu sequer conheço o criminoso, não julguei qualquer causa patrocinada por ele e o processo que era objeto de conversa entre traficantes era da outra Turma Criminal onde à época oficiavam outros colegas”, declarou.
Interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal, divulgadas pela Revista Piauí, indicam que a irmã do traficante Leonardo Costa Nobre, identificada como Juliana, ligou do escritório do advogado Todde Nogueira para o irmão, que estava preso.
Durante a conversa, ela teria afirmado que o advogado teria relação direta com o desembargador.
“O negócio do Todde é com o Ney Bello mesmo, e aí Ney Bello intermedeia esse trem”, disse a mulher na ligação interceptada.
Segundo o diálogo, Juliana também relatou que o advogado teria afirmado ter pago cerca de R$ 1,5 milhão ao magistrado. A reportagem, entretanto, ressalta que não fica claro em qual contexto o suposto pagamento teria ocorrido.
Apesar das citações feitas nas gravações, a própria Revista Piauí informa que Ney Bello não é investigado no caso. O desembargador aparece apenas nas conversas monitoradas entre os envolvidos no suposto esquema.
Na mensagem enviada aos colegas do tribunal, ele também afirmou que a Procuradoria-Geral da República denunciou o advogado exatamente pelo crime de tráfico de influência, tendo os magistrados citados nas conversas como vítimas.
No comunicado encaminhado aos colegas, Ney Bello também relacionou a repercussão do caso à disputa política no Maranhão.
Segundo ele, publicações em blogs e redes sociais estariam associadas a adversários políticos do vice-governador do estado, Felipe Camarão, e do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, com quem o desembargador afirma manter relação de amizade há décadas.
O magistrado informou ainda que pretende adotar medidas judiciais contra responsáveis por publicações que considera ofensivas à sua honra e à imagem do tribunal.
Abaixo, os esclarecimentos do magistrado:
Caríssimos, embora seja desnecessário em razão de minha própria história pessoal, gostaria de dar notícia de fatos, já que o contexto envolve a nossa jurisdição e não há nada que mereça mais cuidado do que a atividade que desenvolvemos no nosso Tribunal.
Aquilo que conseguimos e seguimos construindo através dos tempos é o que vale.
Pois bem:
1 – Fui vítima de tráfico de influência (famosa venda de fumaça) praticada por um traficante de cocaína, e que também é advogado, que teria afirmado a outro traficante de drogas que já havia me pago “uma beirada” (linguaje chula mesmo). Nesse mesmo contexto, o criminoso – hoje réu – avançou que havia também “acertado” com Olindo Menezes e a Saulo Casali decisão em específico processo.
2 – A PGR processou criminalmente o advogado/traficante por esse exato fato – tráfico de influência – no qual figuro como vítima e também por uma série de outros delitos conexos.
3 – Eu sequer conheço o criminoso, não julguei qualquer causa patrocinada por ele e o processo que era objeto de conversa entre traficantes era da outra Turma Criminal onde à época oficiavam outros colegas. Eu sequer tinha jurisdição no feito que era razão das conversas monitoradas.
4 – Obviamente nem eu nem Wilson, nem Maria do Carmo, nem Saulo, nem Pablo e nem Olindo – juízes criminais à época – sequer sabemos quem são os criminosos envolvidos. A PGR entendeu isso muito bem. O advogado/traficante hoje responde a processo e somos nós as vítimas.
5 – Dada a disputa política em meu Estado, o Maranhão, e considerado a minha relação de amizade há 50 anos com o ex-governador e hoje min. do STF Flávio Dino e de 30 anos com o vice-governador do Estado do Maranhão – Felipe Camarão – meu orientando de pesquisa, graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós doutorado – o grupo político ex-adverso de Felipe (secretário de Flávio Dino por 7 anos) houve por bem postar em 3 blogs e 2 Instagrams matéria imensamente ofensiva à minha honrar e à imagem desse Tribunal.
6 – Estou movendo queixa crime e ações cíveis de indenização contra quem de direito – já afirmando que valores obtidos serão doados a instituições filantrópicas – tudo em defesa daquilo que mais prezo: dignidade e magistratura limpa!
Abraços a todos!